Durante muito tempo a espiritualidade foi tratada como algo que não cabia na consulta. Um assunto que devia ficar do lado de fora da porta, como se fosse incompatível com a prática médica séria, baseada em ciência. Mas a experiência de quem vive a clínica, dia após dia, diz o contrário.
Pacientes não chegam só com exames ou sintomas. Chegam com histórias. Com vazios. Com orações feitas na noite anterior. Com perguntas sem resposta. E, muitas vezes, com um pedido silencioso: “me ouça com o coração”.
Já perdi a conta de quantas vezes ouvi o paciente dizer ao final de uma consulta que esse seria o último médico através do qual ele tentaria buscar ajuda.
Essa não é uma fala isolada. Infelizmente é recorrente. Mas falas assim mudam a forma como você enxerga sua profissão. Porque ali, você entende: há algo acontecendo que vai além da técnica.
A ciência já reconhece: espiritualidade faz diferença
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece desde 1998 que espiritualidade é uma dimensão essencial da saúde. O Conselho Federal de Medicina criou, em 2022, uma Comissão Nacional de Saúde e Espiritualidade para aprofundar esse tema no Brasil com seriedade e base científica.
Estudos da USP e do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC/FMUSP) demonstram que altos níveis de bem-estar espiritual estão associados a menores taxas de depressão, menos risco de suicídio e maior adesão ao tratamento.
Um estudo de revisão publicado na Revista de Psiquiatria Clínica apontou que a espiritualidade pode funcionar como fator protetor em quadros de transtornos mentais comuns, influenciando diretamente nos desfechos terapêuticos. E a literatura internacional é vasta nesse sentido: espiritualidade é associada a menor ativação crônica do estresse, maior regulação emocional e sentido de vida.
Espiritualidade não é religião — é pertencimento, é sentido
Quando falamos de espiritualidade, não estamos falando de doutrina, credo ou conversão. Estamos falando de sentido. De valores. De conexão com algo maior.
É perguntar:
O que ainda te sustenta?
O que te dá forças para levantar da cama?
Como você entende essa dor pela qual está passando?
São perguntas simples, mas que abrem portas onde antes havia só silêncio. O paciente começa a se ouvir. E você começa a ver que não é apenas um prescritor. Você é presença.
Minha fé me levou a lugares que eu nem sonhava ser merecedor
Essa frase não é apenas poética. É autobiográfica.
Minha fé me salvou mais de uma vez. Me guiou nos momentos em que o cansaço e o esgotamento quase me fizeram desistir. Foi pela fé que compreendi que cada paciente que chega até mim é alguém que eu estou capacitado a ajudar. E que, de alguma forma, também sou instrumento — com ética, com ciência, com verdade.
Esse entendimento não me afastou da medicina baseada em evidências. Pelo contrário: me aproximou ainda mais da prática humanizada, centrada no ser. Me fez estudar mais, ouvir melhor, perguntar com mais intenção.
Soft skills para escutar a alma
Para que isso aconteça, não basta querer. É preciso estar preparado. Escutar a alma do outro exige autocuidado, ética, clareza, limites e empatia. Foi por isso que iniciei minha jornada com a HUB2DOC.
A HUB2DOC me ofereceu o suporte técnico e humano que eu precisava para sustentar esse tipo de prática:
- Um sistema de agendamento e pagamento que me libera do operacional
- Ferramentas de jornada do paciente que aprofundam o vínculo desde o primeiro contato
- Mentorias em skills que usam a neurociência cognitiva e comportamental que me preparam para ser um profissional mais presente, mais inteiro, mais empático e em alta performance.
Foi com essa base que pude, de fato, abrir espaço na consulta para perguntas que não cabiam no prontuário, mas transformam o cuidado.
A espiritualidade é um recurso de saúde — e precisa ser respeitada
Estudos do CNPq, da ABPS (Associação Brasileira de Psicologia da Saúde) e grupos como o NUPES (Núcleo de Pesquisas em Espiritualidade e Saúde da USP) reforçam: a espiritualidade não é uma “crença particular irrelevante”, mas um dos maiores fatores de resiliência em situações de sofrimento psíquico e físico.
Sabemos, por exemplo, que pacientes com práticas espirituais regulares apresentam:
- Melhor adesão a tratamentos
- Menor tempo de internação
- Redução de sintomas depressivos e ansiosos
- Aumento da satisfação com a vida.
Quando o profissional reconhece essa dimensão, sem imposição ou julgamento, ele oferece um cuidado mais íntegro, mais eficaz — e mais humano.
Cuidar do outro sem adoecer a si
Por fim, falar de espiritualidade também é falar de nós, profissionais.
Quantos de nós carregam esgotamento, culpa, sensação de vazio mesmo exercendo uma profissão “nobre”? Quantos se perguntam, no silêncio, se ainda estão no caminho certo?
Espiritualidade, nesse caso, também é ferramenta de autorreconhecimento. De reconstrução do propósito. E sim, de autocuidado.
Eu sigo me formando como médico e como ser humano. E saber que tudo o que idealizamos na HUB2DOC só traz a certeza de que nosso propósito é construir pontes para que nenhum médico precise fazer essa travessia sozinho.
Referências:
Organização Mundial da Saúde. “Health Promotion Glossary”, 1998.
Conselho Federal de Medicina. Comissão Nacional de Saúde e Espiritualidade, 2022.
Lucchetti, G. et al. “Espiritualidade e saúde mental: uma revisão”, Revista de Psiquiatria Clínica, 2020.
Moreira-Almeida, A. et al. “Religiosidade e saúde: da compreensão à prática”, Revista Brasileira de Psiquiatria, 2006.
Koenig, H. “Religion, Spirituality, and Health: The Research and Clinical Implications”, ISRN Psychiatry, 2012.
NUPES USP: www.nupes.org.br



