Nos últimos anos de consultório eu testemunhei algo que os manuais acadêmicos raramente ensinam a reconhecer. Pacientes chegam com exames normais, mas olhos opacos. Relatam dores sem explicação física, angústias que não cabem nos formulários. Mostram sintomas descritos nos livros, mas que parecem maiores do que qualquer CID.
Muitas vezes, em silêncio, carregam perguntas existenciais que ninguém escutou.
Por que eu estou vivendo isso?
Será que ainda faz sentido continuar?
Será que Deus se esqueceu de mim?
Essas não são apenas queixas clínicas. São gritos por sentido. São fraturas na alma que escapam ao alcance dos protocolos. É nesse espaço que a espiritualidade aparece, não como dogma, mas como ponte. Uma ponte entre o que o paciente sente e o que ainda pode ser reconstruído. Entre o sofrimento que não se entende e a vida que ainda quer se sustentar.
A espiritualidade como dimensão legítima da saúde
Desde 1998, a Organização Mundial da Saúde reconhece a espiritualidade como um dos quatro pilares do cuidado integral, ao lado da saúde física, mental e social. A partir disso, estudos internacionais e nacionais passaram a demonstrar que pessoas com espiritualidade ativa tendem a:
• Ter maior adesão a tratamentos prolongados
• Apresentar melhores indicadores de bem-estar emocional
• Possuir mais resiliência diante do sofrimento físico ou mental
• Apontar maior capacidade de enfrentamento em doenças graves
Esse impacto não está restrito à religião institucionalizada. Trata-se da espiritualidade como um eixo de propósito, transcendência, sentido e conexão com algo maior — seja Deus, a natureza, a ancestralidade ou uma filosofia de vida.
Na prática clínica, isso aparece de maneira espontânea. Muitos pacientes dizem:
“Eu rezei para Deus me mandar um médico que me escutasse hoje.”
“Eu pedi um sinal, e essa consulta foi a resposta.”
“Achei que seria minha última tentativa, e estou saindo renovado.”
“Hoje eu desisti de pôr fim à minha vida, depois da nossa conversa.”
Esses relatos não são coincidência. São âncoras psíquicas. São laços de esperança que sustentam a adesão, mobilizam recursos internos e facilitam a aliança terapêutica.
O que escutar quando o paciente fala de fé
Como profissionais de saúde, não precisamos ter as mesmas crenças que nossos pacientes. Precisamos, sim, desenvolver a escuta que reconhece o valor simbólico e terapêutico da fé para quem sofre.
Validar a espiritualidade do paciente é reconhecer um de seus recursos mais profundos de enfrentamento. E essa validação não exige compartilhamento de crença — exige apenas presença, empatia e respeito.
A fé, quando genuína, pode ser parte do plano terapêutico. Pode fornecer sentido, aliviar culpa, gerar pertencimento. Mas também pode ser usada como instrumento de repressão, medo ou culpa. Por isso, a escuta clínica precisa ser refinada e ética.
Ética, diversidade e preparo
A abordagem da espiritualidade no consultório não é sobre falar de religião. É sobre abrir espaço para que o paciente possa existir inteiro diante de você. Com sua dor, sua ciência, sua biografia e sua fé.
Isso exige preparo. E exige acionar habilidades comportamentais que nenhum currículo técnico oferece. Exige, por exemplo:
• Saber escutar sem julgar e sem projetar nossas crenças
• Estabelecer limites claros sem ser frio ou evasivo
• Traduzir valores espirituais em práticas clínicas respeitosas e eficazes
• Lidar com pacientes de crenças diferentes das nossas — ou mesmo com aqueles que não possuem fé alguma, mas ainda buscam sentido
Essa maturidade profissional é parte do que define a excelência na prática clínica contemporânea.
O papel da HUB2DOC nesse processo
Durante minha trajetória, precisei reaprender a cuidar de mim para continuar cuidando do outro. Quando vivi episódios de burnout, percebi que, para exercer uma medicina mais humana, eu precisava de sustentação técnica, emocional e espiritual.
Foi assim que nasceu a HUB2DOC.
Hoje, como cofundador e usuário da plataforma que idealizei juntamente com uma Administradora de Empresas e uma Neurocientista, vejo com clareza o impacto que ela tem no modo como exercemos o cuidado. A HUB2DOC não é apenas uma ferramenta de agendamento. Ela é um ecossistema de suporte ao profissional que deseja empreender com sentido e cuidar com presença.
Ela me ajuda automatizando a agenda e os pagamentos, para que meu tempo seja respeitado. Sustenta meu posicionamento com clareza, para atrair os pacientes certos. E oferece mentorias sobre as skills que verdadeiramente importam e sustentam resultados de longo prazo, e elas não são hard, são soft. É onde aprendo a escutar melhor, a conduzir com limites, a manter a empatia viva mesmo nos dias difíceis.
A HUB2DOC me dá o que nenhum prontuário eletrônico me deu: estrutura para continuar sendo humano.
Conclusão
Na medicina, aprendemos a tratar diagnósticos. Mas, no consultório real, quem chega é uma pessoa — inteira, atravessada de história, dor, desejo e fé.
Escutar a espiritualidade do paciente é um ato clínico. É um gesto ético. É uma ferramenta de cuidado integral. E quando temos estrutura, maturidade e apoio — como o que a HUB2DOC oferece — conseguimos ser o profissional que o paciente pediu em oração.
Porque, muitas vezes, o que cura não é só o remédio. É a escuta. É o respeito. É o encontro com sentido.
Referências e bibliografia:
• Organização Mundial da Saúde. WHOQOL-SRPB: Spirituality, Religion and Personal Beliefs field-test instrument, 2002
• Conselho Federal de Medicina. Comissão Nacional de Saúde e Espiritualidade, 2022
• Núcleo de Pesquisa em Espiritualidade e Saúde – NUPES (USP-Ribeirão Preto)
• Koenig HG. Religion, spirituality, and health: the research and clinical implications. ISRN Psychiatry. 2012
• Lucchetti G, Lucchetti AL. Espiritualidade e saúde: o que a ciência nos diz. USP, 2020
• Balboni TA et al. Why is spiritual care infrequent at the end of life? J Clin Oncol. 2013
• Relatos reais do autor (2020–2025), com autorização ética para publicação anônima



