SKILLS

O profissional da saúde que trabalha demais e cresce de menos: a travessia necessária

Durante muitos anos, minha rotina era intensa e silenciosamente doentia. Atendimentos de segunda a segunda. Hora para começar, nenhuma para terminar. Quando não estava em plantão, respondia mensagens de pacientes. Quando não estava atendendo, estava cansado demais para pensar. Ainda assim, eu seguia. Como se esse fosse o preço inevitável de ser um bom profissional da saúde.

Ao longo de sete anos, tive três episódios de burnout. Em um deles, o corpo simplesmente parou de colaborar. Acordava com o estômago em alerta, a mente em disparo, a garganta fechada de um jeito que nenhuma medicação explicava. E, mesmo assim, eu ia. Porque era o que se esperava. Porque eu acreditava que era normal. Porque todo mundo dizia que era assim no começo. Só que já não era mais começo, e ainda assim não havia fim.

Troquei a clínica privada por atendimentos no SUS. Atuei como PJ em saúde mental. Acreditei que aquele seria um modelo mais leve. Mas não demorou para perceber que estava no mesmo ciclo, apenas com outra estética. A remuneração parecia justa, até que fosse dividida pela carga de trabalho, pelas horas dedicadas, pelos deslocamentos, pela carga emocional. Mais uma vez, era insuficiente. E, dessa vez, era insustentável.

Foi nesse ponto que precisei parar. Pela primeira vez em anos, encarei com clareza minha vida profissional. Analisei meus ganhos, meu tempo, meu corpo, minha sanidade. O que vi foi inaceitável. Eu estava me anulando em nome de um modelo que não me reconhecia. Trabalhava demais. Crescia de menos.

Decidi abrir meu consultório. Não apenas como espaço físico, mas como símbolo de retomada. Não queria mais sobreviver dentro da minha profissão. Queria viver com presença, com liberdade, com intencionalidade.

A mudança começa quando você entende que pode fazer diferente. Não mais empurrar uma rotina esgotada, mas redesenhar o próprio caminho. Não mais depender de repasses, convites ou ferramentas genéricas. Mas ocupar o seu espaço com consciência e verdade.

Percebi que poderia viver apenas do meu atendimento particular. Que ali existia a possibilidade real de construir liberdade. Mas também reconheci algo essencial: eu ainda não sabia ser o médico e o empreendedor que precisava ser. Tinha conhecimento clínico, mas pouca estrutura de negócio. Tinha visão de cuidado, mas não sabia posicionar meu trabalho no mundo. Durante o primeiro ano do consultório, fui observando com atenção o que me faltava na prática. Usei diferentes prontuários eletrônicos — alguns pagos, outros limitados — e percebi que nenhum deles realmente me dava autonomia. Os mais robustos tinham custos altos para alguém que ainda estava aprendendo a se organizar financeiramente. Os mais acessíveis não davam conta da complexidade do que eu queria oferecer.

Dessa inquietação, dessa escuta real do que eu precisava, nasceu um ecossistema. Algo que unisse tecnologia, organização e identidade profissional. Algo que compreendesse que um profissional da saúde é mais que técnico. É também gestor, comunicador, ser humano em constante travessia.

Foi aí que nasceu a Hub2Doc.

Com ela, comecei a automatizar minha agenda, a estruturar meus fluxos, a me comunicar com mais clareza. Refiz meu posicionamento profissional, construí uma presença mais coerente com quem eu sou e com o tipo de cuidado que eu ofereço. Ainda estou nesse processo. Ainda estou aprendendo a cuidar da minha marca como cuido dos meus pacientes. Ainda estou estudando formas de crescer com estratégia, de sustentar o que ensino, de oferecer saúde sem me perder de mim no caminho.

Hoje, reservo um dia da semana apenas para mim. Não porque sobrou tempo, mas porque aprendi a tratar o meu tempo como extensão da minha saúde. Aprendi que sucesso profissional não é uma agenda lotada. É uma vida equilibrada. Não é reconhecimento à custa de adoecimento. É coerência entre o que se entrega, o que se vive e o que se acredita.

Essa travessia não é simples. E ela ainda está acontecendo. Mas ela é possível. E ela não precisa ser solitária.

De acordo com a Demografia Médica no Brasil (CFM/USP, 2023), um em cada três médicos mantém três ou mais vínculos de trabalho. A carga horária semanal média ultrapassa 60 horas. Mas esse padrão de sobrecarga está longe de ser exclusivo da medicina. Pesquisas com profissionais da psicologia, enfermagem, nutrição e terapia ocupacional revelam a mesma tendência: múltiplos vínculos informais, insegurança financeira, jornadas exaustivas, ausência de planejamento profissional e altos índices de sofrimento psíquico.

O relatório Saúde Brasil 2022, publicado pelo Ministério da Saúde, apontou que os profissionais da saúde apresentam taxas de transtornos mentais quase 40% maiores do que a população geral. A exaustão emocional e a perda de sentido são os principais motivadores de afastamentos.

A pesquisa de Maslach e Leiter, publicada na World Psychiatry, reforça esse diagnóstico: o burnout não é apenas resultado de excesso de tarefas. Ele nasce do desalinhamento entre os valores do profissional e os ambientes em que ele atua. O corpo adoece quando o propósito é ignorado.

E quando o propósito se dissolve, o esforço não compensa.

O problema não é trabalhar muito. É trabalhar muito dentro de sistemas que não devolvem. Que pedem demais e oferecem de menos. Que cobram disponibilidade sem retorno. Que exigem excelência técnica, mas silenciam a dimensão humana. Modelos que formam profissionais brilhantes, mas emocionalmente exaustos e desconectados de si.

A transformação começa quando você compreende que pode construir um modelo diferente. Um modelo com autonomia, clareza, limite e estratégia. Onde vocação e posicionamento não se anulam, mas se fortalecem. Onde não é preciso abrir mão de cuidar para ser visto como profissional completo.

Você não precisa abandonar sua profissão. Mas pode parar de se abandonar dentro dela.

A saúde que você oferece ao outro precisa começar em você.

Essa é a travessia. E ela é real.


Referências e Fontes:

1. Scheffer, M. et al. Demografia Médica no Brasil 2023. CFM e USP.

2. Associação Médica Brasileira (AMB). Panorama da Formação Médica. 2022.

3. Ministério da Saúde. Saúde Brasil 2022 – Saúde Mental do Trabalhador da Saúde.

4. Conselho Federal de Psicologia. Condições de Trabalho dos Psicólogos no Brasil. CFP, 2021.

5. Maslach, C. & Leiter, M.P. Understanding the burnout experience: recent research and its implications for psychiatry. World Psychiatry, 15(2): 103–111, 2016.

6. Pereira-Lima, K. et al. Physician Burnout and the Medical Education Pipeline. JAMA, 2019.

7. Revista Brasileira de Educação Médica, v. 45, 2021. Lacunas da formação médica no Brasil.

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